A era da inveja Rafael Rosset 16 07 2018
Dentro de alguns anos antropólogos e historiadores conhecerão nossa época como a era da inveja.
Há uns dias li um artigo de um professor da Faculdade de Jornalismo da Casper Líbero em que ele defendia a regulamentação de um "salário máximo", uma vez que já tínhamos um salário mínimo. Usando como exemplo os CEOs de alguns bancos, que ganham milhões de salário por mês, sugeria uma taxação de 100% acima de determinado valor, digamos 100 ou 150 vezes o salário mínimo vigente, como teto de remuneração para qualquer pessoa. Ou seja, o que o sujeito ganhasse acima disso seria simplesmente confiscado e redistribuído pelo Estado.
Por mais que me esforçasse, nunca consegui ver nenhuma imoralidade ou injustiça no fato de existirem pessoas muito ricas, ou que ganham mais do que eu. Primeiro, porque eu objetivamente não estou ficando mais pobre porque essas pessoas estão ficando mais ricas. A despeito do fato de a riqueza ser limitada, ela é continuamente criada, sem necessidade de tirar o que é do outro. Segundo, é evidente que filhos de banqueiros (pra ficar no exemplo dado) têm mais oportunidades de crescimento na vida, o que inclui estudo e capital, mas eu tenho mais estudo que Bill Gates, e comecei minha vida com mais capital do que Warren Buffett, e, no entanto, com a minha idade ambos já eram multibilionários. Tá cheio de gente com pós-doutorado vivendo com bolsa de R$ 4.100,00 da Capes, ao mesmo tempo em que Alexandre Tadeu da Costa concluiu o ensino médio, foi vender chocolates num Fusca 78 e hoje fatura mais de R$ 3 bilhões por ano com a Cacau Show. Ou seja, "oportunidade", na vida, é um conceito relativo. Conta muito mais o que você faz com seu tempo e como você aproveita o que tem.
Bill Gates fundou uma empresa que emprega 93 mil pessoas e desenvolveu produtos que impulsionaram a produtividade global numa escala imensurável, e Alexandre Tadeu da Costa criou a maior chocolateria do mundo, através da qual pessoas de mais baixa renda têm acesso a um chocolate de melhor qualidade do que aquele que pode ser comprado em supermercados. Como é que EU vou determinar quanto essas pessoas deveriam ganhar? A única base moral para se defender algo assim é o ressentimento disfarçado de justiça social sob a forma de "redistribuição de renda".
O mesmo pensamento tacanho se revelou nessa copa do mundo, com a orientação da Fifa para que as câmeras evitassem focar mulheres bonitas nos estádios, diante de acusações de "sexismo". Como não dá para colocar imposto sobre a beleza, ou redistribuir os atributos físicos de quem os tem para quem não os tem, o jeito é esconder as pessoas bonitas para que os feios se sintam melhor. É claro que isso não funciona, por dois motivos simples: (i) as "vítimas" de sexismo (mulheres bonitas) em nenhum momento se sentiram ultrajadas, ao contrário: 11 a cada 10 vezes, quem denuncia o "assédio" é justamente quem não corre o menor risco de sofrê-lo; (ii) ninguém, gente feia incluída, quer ver mais gente feia. Ninguém (normalmente) liga a TV para assistir freak show. Quando você vai ao cinema, sintoniza a novela ou acompanha uma série na Netflix, você não tem diante de você uma representação igualitária do que seja a sociedade, e sim um corte muito específico de gente BONITA, inteligente e carismática, ou ao menos de gente acima da média da população. Isso porque seres humanos são atraídos pela beleza e por atributos excepcionais como mariposas são atraídas para uma lâmpada acesa. Ninguém aqui, depois de um dia cansativo de trabalho, sonha em chegar em casa, ligar a TV e dar de cara com a Jandira Feghali de biquíni. Possivelmente nem mesmo o marido da Jandira Feghali.
Para contrariar um fato natural e uma verdade universal, só uma ideologia bisonha pode forçar goela abaixo da multidão o contrassenso de que você poderia ter mais dinheiro no banco se Jeff Bezos (o sujeito que fundou a Amazon, filho de mãe solteira e adotado por um refugiado cubano) ganhasse menos dinheiro, ou que você poderia se sentir menos feio caso colocassem um cosplay do Evo Morales pra fazer o papel do Superman.
O culto ao feio e ao medíocre é a vingança dos ressentidos, e a desgraça do nosso tempo é que os ressentidos agora têm voz ativa e ocupam posições de poder. Talvez a nossa maior tarefa, como conservadores, seja justamente a de lembrar todo dia que a beleza existe, que virtude importa, que riqueza pode ser criada gerando valor para o próximo e que a sua felicidade, ou a falta dela, é problema seu, não da sociedade.